Dylan Dog de Tiziano Sclavi



Depois de ter divulgado aqui a mais recente edição italiana de Dylan Dog, nos comentários a esse mesmo texto desafiei um dos leitores aqui do BD no Sótão, o V, a escrever sobre a personagem, e isto a propósito de uma edição espanhola que recentemente V tinha adquirido.

Este é o excelente resultado:
------------------------------------------------------------------

Dylan Dog de Tiziano Sclavi
por V
 
Sendo caso de sucesso em Itália onde, desde a sua estreia em 1986, esteve sempre no topo das vendas (apenas atrás dos eternos Tex e Topolino), esta série mensal ultrapassou já os 300 números, tendo também resistido ao abandono do seu escritor original, Tiziano Sclavi, passado pelo grande ecrã, rádio e jogos de vídeo, e traduzido para várias línguas (incluindo o brasileiro e excluindo o português).


Inserindo-se no universo alternativo da Bonelli com outras séries mais ou menos conhecidas em Portugal como Martin Mystère, Julia ou Ken Parker (por oposição, digamos, ao faroeste por onde cavalgam Tex e Mágico Vento), Dylan Dog é uma série que mostra uma grande reverência ao cinema e à literatura, e aos quais deve mais do que à sua herança de fumetto. Sclavi não se coíbe de preencher as vinhetas com homenagens mais ou menos óbvias que, apesar de ser esse o foco e tom geral da série, não se limitam ao horror. Aliás, o próprio Dylan terá sido baptizado em honra do escritor modernista galês Dylan Thomas e da sua bem conhecida obra Retrato do Artista Quando Jovem Cão (Portrait of the Artist as a Young Dog, 1940). 

Pormenor da capa do nº 327 (Novembro 2013) da autoria de Angelo Stano, um dos primeiros responsáveis visuais da série

De resto, também H. G. Wells se faz personagem numa das histórias deste livro; a apetência de Dylan pelo clarinete faz lembrar o idêntico fascínio que Sherlock Holmes tinha pelo violino; e a atmosfera do mistério e do macabro da obra do incontornável Edgar Allan Poe é aqui fielmente transfundida. Se as referências literárias são claramente de influência anglo­saxónica, já as referências cinematográficas seguem o código da corrente de horror italiano, o giallo (da qual Lucio Fulci, Mario Bava e Dario Argento são os maiores nomes, e que foi particularmente relevante do final dos anos 60 até aos anos 80), embora obviamente também as séries ...Of The Dead e ....Of the Damned e os filmes de John Carpenter sejam influentes no imaginário de Sclavi.

Sendo o próprio giallo de forte influência anglo­saxónica, desde as obras de Poe ao suspense de Alfred Hitchcock, é por demais evidente que a própria localização e caracterização de Dylan Dog na Grã-Bretanha surge de forma natural. Ainda assim, a atmosfera parece dever mais aos investigadores vitorianos que aos detectives do pulp ou do cinema noir norte-americano. De outro modo, a forte componente do fantástico e do sobrenatural é também um traço em comum com o giallo, assim como a ilustração de violência explícita e macabra.

Capa de Mike Mignola para o nº 1 de
The Dylan Dog Case Files (Dark Horse, Abril 2009)
De resto é óbvio que, para lá do testemunho autoral de Sclavi, esta série é também um vestígio da sua génese nos anos de 1980, onde o revivalismo das séries de detectives e de sobrenatural esteve em marcha. Assim, a versão de Sherlock Holmes com Jeremy Brett em 198, o renovado Twilight Zone de 1985, a apologia a Raymond Chandler que foi The Singing Detective em 1986 e o clássico de Douglas Adams Dirk Gently's Holistic Detective Agency, poderão seguramente inserir Dylan Dog como obra emblemática da sua época.

Dylan Dog assume-­se como um detective dos pesadelos (não confundir com o seu colega bonelliano Martin Mystère, detective do impossível), sediado em Londres. Este título autodenominado não é, no entanto, tão literal como em outro detective, seu contemporâneo, John Constantine (1985 em Swamp-Thing e 1988 em Hellblazer) ou da dupla de filmes japoneses realizados por Shinya Tsukamoto (Nightmare Detective), que habitavam frequentemente e literalmente o mundo dos sonhos. Com Dylan são até relativamente raras as incursões pelo mundo metafísico, ainda que estejam presentes.

O seu companheiro de aventuras é nada menos do que Groucho Marx (ou será um imitador?) que, óbvia e surrealmente, destoa do ambiente britânico da série mas proporciona, com a característica esperteza do Groucho original, os melhores momentos de humor na série o que é, aliás, um dos traços mais distintos e bem­vindos nas habitualmente sisudas edições da Bonelli. Esta incursão surrealista, para lá do humor, funciona ainda perfeitamente ao estabelecer de uma certa incredulidade deste universo que deixa o leitor sempre a duvidar de si próprio à medida que a obra navega entre o real e o fantástico.

Dylan-Groucho por Massimo Carnevale
Dylan Dog é, no entanto, uma personagem relativamente contida e que a narrativa raramente expõe. Este estado torna­-o, aqui à semelhança de outros Bonelli, numa boa incarnação do leitor, uma espécie de homem­-espelho a partir de cujo espírito ténue o leitor se pode abstrair e entrar na história. Não o veremos em grandes cenas de acção ou emotividade e, não sendo comuns longos silêncios, é através do que pensa e do que ouve das personagens secundárias que a narrativa, invariavelmente, decorre.

Apesar da  situação das aventuras no mundo presente tal actualidade é elicitada de forma praticamente obstinada, uma vez que a série deixa transparecer poucos sinais de modernismo. Dylan rejeita computadores e televisões, conduz um  “carocha” do pós-­guerra e a atmosfera das suas investigações está fortemente assente num época pregressa. A Londres de Dylan provavelmente deve mais às obras de Dickens que às reformas de Thatcher e não faltam as incursões pelo meio rural que tantos clássicos mistérios britânicos tem motivado.

Dylan é assim uma personagem que, resultante do anacronismo que perpassa a série, se vê como um  espírito, intemporal  e  deslocado,  cujas  únicas ligações  aparentes  ao mundo físico são  o seu extravagante  acólito  Groucho  e  o seu  anafado  e  inconsequente  amigo  e  ex­-colega  na  Scotland Yard, o  inspector Bloch. No entanto, a sua melhor característica acaba por ser, na sua constância, o facto de ser precisamente etéreo, deixando a narrativa brilhar por si só, ao invés de a carregar às costas até à última página, como é apanágio de muitas séries. A combinação do anti­-herói com o privilégio da  narrativa será uma das estratégias mais bem gizadas pelo seu autor na elaboração desta obra.

O teor, apesar do gore, segue mais o terror psicológico, jogando com a incerteza das acções  e intenções dos antagonistas e criando um ambiente tenso e cativante. As tramas invariavelmente terminam com  finais inesperados que muitas vezes ilustram a inconsequência da vida e a impotência do herói face a forças superiores. Isto ajuda a explicar o seu desapego ao mundo em que habita, quer seja disso decorrente ou condição prévia.

Tenebrae de Dario Argento, um giallo de 1982
Aliado ao horror também o sobrenatural se revela. Se, por um lado, por vezes emergem temas de ocultismo com referências a Abraxas (o anagramático Dr. Xabaras é o nome do seu arqui­inimigo –  à boa maneira  dos Drs. Moriarty e Fu Manchu) e ao mesmerismo, estes são frequentemente usados como instrumentos para o adensar do mistério, e não como o mistério em si mesmo (como seria frequente em Martin Mystère); por outro é a grande obsessão com a morte que domina estes contos. Isto é, obviamente, não só a morte criminosa, mas a sua suplantação e a incógnita do além­ mundo. De outra forma, também as motivações dos crimes e mistérios assentam pouco na razão terrena  dos  mesmos mas antes na existência de tendências naturais malignas.  A humanidade é assim frequentemente descontextualizada e  desresponsabilizada num jogo entre o puro e o perverso e Dylan e Groucho observam invariavelmente de fora, estando sempre presente a ideia de um certo fatalismo quanto à entropia deste universo. Esta verdadeira obsessão pela morte é, aliás, uma das características do estilo literário de Edgar Allan Poe, sendo frequentes exposições sobre reanimações (em Dylan Dog já absorvendo a cultura zumbi), decomposição dos corpos e enterro dos vivos.

Original da primeira prancha de Luca Dell'Uomo para Gli Uccisore, história publicada no nº 5 de Dylan Dog em 1987

Assim,  Dylan  Dog  mostra­-se  como  uma  magnífica  série  que  alia  uma  fidelidade  canina  aos clássicos à encarnação do espírito giallo mas que, para além de o fazer de uma forma que roça a perfeição, consegue ainda juntar uma forte componente de surrealismo que ajuda  a fazer transcender a obra e a elevá­la aos píncaros desta arte. Sem querer fazer desconsiderações é na narrativa que indubitavelmente está o segredo deste trabalho sendo que a adaptação literária respeita as noções fundamentais de construção narrativa e temporização, mantendo a qualidade das composições. Assim, tendo matéria de qualidade  literária, gráfica e de entretenimento, a sua extensa colecção de histórias resulta numa autêntica bíblia da ficção de horror, do mistério e do macabro, com a apropriada quantidade, qualidade e variedade.

Página 34 de Gli Uccisore
Neste segundo volume da edição cronológica pela espanhola Aleta Ediciones, encontram-­se quatro histórias, correspondendo aos números nº 5 a 8, publicados entre Fevereiro e Maio de 1987, a saber:


1.  Los Asesinos: Tiziano Sclavi/Luca Dell'Uomo; (Título original: Gli Uccisore)

2.  La  Belleza  Del  Diablo:  Tiziano  Sclavi/Gustavo  Trigo;  (Título  original:  La  Bellezza  Del Demonio)

3.  La Zona Del Crepúsculo: Tiziano Sclavi/Montanari & Grassani; (Título original: La Zona Del Crepuscolo)

4.  El Retorno Del Monstruo: Tiziano Sclavi/Luigi Piccatto; (Título original: Il Retorno Del Mostro)


A edição é relativamente simples, com duas pequenas páginas introdutórias que começam logo nas costas da capa, e com um pequeno destaque para as capas originais, a cores e da autoria de Claudio Villa, nas costas da contracapa. Apesar da relativa “juventude” da série neste volume a maturidade do estilo está já bem assente. O ambiente urbano permite também uma boa caracterização espacial, o que é particularmente notável nas ilustrações de Dell'Uomo. De resto são cerca de 400 páginas de papel branco e tinta preta de boa qualidade e no tamanho original que certamente irão agradar a qualquer leitor de ficção, seja adepto de histórias aos quadradinhos ou não.


Anarchy Comics

Capa desenhada pelo Pontiac e colorida pelo Colwell
para o nº 3 publicado em 1981


Anarchy Comics foi uma série underground de quatro números publicados em 1978, 1979, 1981 e 1987 pela Last Gasp, editora sedeada em São Francisco.

Editados por Jay Kinney (nº 1-3) e Paul Mavrides (nº 4), cada número era composto por trabalhos de autores anarquistas, situacionistas ou “simpatizantes” – aqui ser simpatizante parece-me um contra-senso mas para já fica assim – provenientes de vários países e com estilos diversificados. Tudo numa estética punk DIY que mistura ficção, história, sátira, comentário e arte. 

Spain Rodriguez, Gilbert Shelton, Melinda Gebbie, Peter Pontiac, Guy Colwell ou Gary Panter foram alguns dos autores publicados.

Na introdução do nº 1 escrita pelo Kinney, que assino por baixo, pode ler-se o seguinte: 

All of the work in this issue has been inspired by - or based on - anarchist ideas and history. As it becomes increasingly clear that the real 'terrorists' are not a few isolated leftists but are the governments and corporations of this world who hold us hostage with their armaments, militaries & intelligence activities, anarchism becomes more & more relevant! 


Todos os quatro números encontram-se aqui para leitura em formato pdf.

Jay Kinney - Nº 1 - 1978
Ruby Ray - nº 2 - 1979
Paul Mavrides - Nº 4 - 1987





















Michel Vaillant - O Piloto Sem Rosto


Michel Vaillant - O Piloto Sem Rosto 

Colecção Michel Vaillant - 3º vol.

Argumento e Desenho: Jean Graton

62 pág., cor, brochado, €5,95

Asa/Público, 16 Abril 2014

 

Publicado originalmente em: 

Tintin nº 539 (19/02/1959) ao nº 569 (17/09/1959); Michel Vaillant - Le pilote sans visage (Lombard, 1960)

Em Portugal: Cavaleiro Andante nº 418 02-01-1960 ao nº 462 - 05-11-1960 (ENP - Empresa Nacional de Publicidade) 

 

Eis o 3º volume desta colecção distribuída com o jornal Público, que na série de álbuns de Michel Vaillant corresponde ao 2º volume, depois de O grande desafio (Le grand défi, 1958; Álbum Auto Sport, 2005).

 

Aqui as 62 páginas de história permitiam desenvolver mais a narrativa que já continha os ingredientes que irão tornar-se a imagem de marca da série: um piloto misterioso com um automóvel potente, uma situação enigmática e as disputas entre Vaillant e os seus rivais em emocionantes corridas descritas ao pormenor por Jean Graton.

 



Nesta aventura Michel Vaillant prepara-se para competir no Grande Prémio de Fórmula 1 do Mónaco, pilotando um Vaillante especialmente preparado para o efeito. Entretanto, um misterioso carro negro é visto a treinar no circuito de Francorchamps, na Bélgica, e mais tarde no circuito de Rouen-les-Essarts, em França. A imprensa da especialidade noticia o sucedido, destacando os tempos recorde obtidos pelo piloto e o facto de nunca ninguém ter visto o seu rosto. O Piloto sem Rosto torna-se uma lenda, até que se apresenta para competir no Grande Prémio do Mónaco…

 

Álbum

Lombard, 1960

Tintin nº 539 (19/02/1959)

Tintin557 (25/06/1959)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Portugal, quando foi publicado no Cavaleiro Andente nos anos de 1960, Michel Vaillant passou a ser "...o nosso Miguel Gusmão..."